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Hoje é o seu dia

Anos 50. Negros de um lado da rua, brancos do outro. A sociedade dividida em um apartheid mundial e o jovem ali, nascendo no meio daquela confusão toda. Jovem e sem perspectiva alguma.

O destino se prometia implacável ao menino que nascera sob a pressão de ser o primeiro mestiço da história. Para os negros, ser mestiço era sinal de perda das raízes. Para os brancos, ser mestiço era abrir mão da pureza de ser exclusivamente superior.

Mas o garoto não se intimidou. Ele era alegre e decidido demais para se importar com os prognósticos pessimistas dos conservadores.








Eu quase não concordava com o Saramago

Nunca soube descrever minha relação com o Saramago. Eu não era fã dele, mas não suportava ver alguém xingando o cara, sempre me atrevia a defendê-lo, mesmo não concordando com grande parte de suas idéias. Era realmente algo inexplicável.

Ganhei o livro Todos os Nomes em 2002, não me lembro ao certo em que data. A capa era super formal, me estimulou a encarar o livro de uma forma séria. Dei uma olhada na contracapa. Li os créditos do autor e guardei, deixando o livro guardado até o dia em que eu pudesse me dedicar exclusivamente a leitura.

Alguns dias depois de tê-lo ganho, ajeitei-me na melhor sombra que encontrei e abri o livro, enfim. Não sei se eu havia criado expectativas demais ou se o livro era mesmo de pouco brilho, mas eu achei uma tremenda besteira. Quando já havia lido as primeiras 10 páginas, comecei a me perguntar porque eu estava fazendo aquilo.

Eu estava começando a escrever as minhas coisas naquela época. Tinha pouco mais de 10 anos e aquela narrativa corrida e carente de pontos finais era a pior coisa que eu, fã de Clarice Lispector, poderia ter pego em mãos naquela tarde de domingo.

Anos depois, quando precisei doar um livro para fazer minha ficha na Biblioteca Municipal, passei o Saramago e sua sabedoria lusitana adiante.

Nesse meio tempo, descobri que ela era um cara importante. Havia publicado o comentado Ensaio Sobre a Cegueira, escrito poesias bem densas nos anos 60, reinventado a própria Bíblia no início dos anos 90 e ganho o Prêmio Nobel de Literatura justamente na época em que publicou o renegado livro que foi parar por acidente na minha cabeceira.

Eu passei a defender Saramago como defendia Mick Jagger: não era o meu preferido no segmento, fazia uma porção de coisas que eu não gosava, mas era uma figura clássica e importante que influenciou muita gente que eu admiro.

Ele tinha alguns discursos meio clichês que pareciam seguir fórmulas: citava a entidade a ser xingada, encrementava a crítica com palavras fortes como reacionário, ditador e verdade-absoluta, e terminava com um singelo tom blassê: "é a minha opinião". Mesmo assim, eu aprendi a ter duas opiniões sobre uma porção de coisas. Uma servia para mim e para os debates que eu travava em meu nome. A outra, quase oposta, servia para concordar o Saramago e impedir que ele fosse linxado sem nem estar presente, como fiz diversas vezes ao longo da minha vida escolar.

Tenho mania de deixar o rádio ligado enquanto durmo. Em um daqueles plantões matutinos, ouvi, ainda deitado e meio dormindo, a notícia de que o dono de minha segunda opinião havia sentido-se mal durante o café e falecido logo após.

Sem ele, a língua portuguesa fica bem mais pobre. Ou pelo menos é o que dizem os seus admiradores. Minha única certeza é a de que teremos menos clássicos sendo lançados nos próximos anos. Era sempre bom saber que teríamos pelo menos um Saramago entre um Crepúsculo e outro.

Daqui fica o respeito e a promessa: pretendo revisitar aquele livro quando estiver preparado. Siga em paz, portuga.

A comunicação tem underground

Na noite passada, o Alexandre Mota esteve na Unisinos num dos últimos seminários da Semana da Comunicação. Pra quem não sabe, o Mota é o Datena da Record Rio Grande do Sul. Um jornalista (diplomado) que segue aquela linha lançada nos anos 90, de apresentador que lê a notícia e se indigna com ela por dois minutos.

Metade do público estava lá para prestigiar uma figura trash da televisão brasileira (Sérgio Mallandro e Sidney Magal teriam atraído um quórum muito semelhante). Outra metade estava lá para bater de frente com um programa que vai contra todos os princípios que nós aprendemos em aula.

O tema da palestra era o limite entre o sensacionalismo e o jornalismo popular. O grande impasse da noite foi Mota ter alegado aos pouco menos de 300 alunos que o seu programa, o Balanço Geral, pertencia ao segundo gênero. Ele não era sensacionalista, partindo do seu ponto de vista, que era apoiado por um diretor da Record sentado ao seu lado.

Infelizmente, os caras acabaram não esclarecendo muita coisa. Dedicaram grande parte do seu tempo a criticar a Rede Globo.

Essa história de monopólio e alienação é um assunto que me irrita bastante. Não que eu seja um defensor da família Marinho, mas é que virou moda, dos anos 80 pra cá, falar mal deles. Parece que a concorrência não se sente boa o bastante para tirar a Globo da liderança e aí quer acabar com a sua popularidade organizando pequenas guerrilhas entre os futuros profissionais da área.

Na maioria das vezes, é só um discurso cheio de picuinha, sem fatos concretos ou provas satisfatórias. Um discurso que na maioria das vezes é apoiado por meia dúzia de estudantes socialistas que nem sabem quem foi Karl Marx.

“Quando os undergrounds viram que não iam conseguir chegar ao sucesso, inventaram um estereótipo para darem a entender que nunca quiseram ter chegado lá." (Marcelo Fromer, guitarrista dos Titãs, 1999)

É a relação que eu vejo entre a Globo e a concorrência: uma detém grande parte do poder e a outra fica por fora, correndo, gritando e exagerando, para que o seu pequeno poder pareça maior do que realmente é.

A Globo possui um monopólio, e ele é fruto de muito trabalho (em sua maioria) honesto. É um monopólio parecido com o que é exercido pela Coca-Cola, aquela bebida que os socialistas da minha universidade misturam com cachaça para tomarem enquanto jogam bilhar.

Não sou direitista, mas acho esse discurso mofado dos esquerdistas uma medida de urgência surgida da vontade de aparecer. Não vão ser os discursos inflamados que vão tirar a Globo do topo. Na verdade, a Globo deve comemorar essa revolta, porque vê nisso um sinal de que as coisas estão dando certo para o seu lado.

Eu não sou fã da Rede Globo. Particularmente, torço muito para que alguém mais inteligente (ou pelo menos alguém que disponha de um par de neurônios ativos) apareça querendo fazer frente ao monopólio em questão. Aí sim eu tomaria partido.

Enquanto isso não acontece, a Globo segue no topo e a popularidade trash serve de consolo aos segundos colocados. E ainda me perguntam de qual lado eu quero estar.

Nação do Alzheimer Coletivo

"Não há razão para que alguém queira ter um computador em casa."
Ken Olson, presidente e fundador da Digital Equipment Corp. (DEC), em 1977.

"Eu viajei por todos os cantos deste país e conversei com as melhores pessoas, e posso assegurar a você que o processamento de dados é uma moda e não vai durar até o final do ano."
Editor responsável por livros de negócios da Prentice Hall, em 1957.

"Os americanos têm necessidade de telefones, mas nós não. Temos um monte de mensageiros."
Sir William Preece, engenheiro-chefe da Escritório Postal Britânico, em 1878.

"Quem diabos deseja ouvir os atores falando?"
H. M. Warner, co-fundador da Warner Brothers, defendendo o cinema mudo, em 1927.

"O cavalo está aqui para ficar, mas o automóvel é apenas uma novidade, uma moda."
Presidente do banco de Michigan alertando o advogado de Henry Ford para não investir na montadora, em 1903.

"Bandas com guitarras estão fora de moda, Sr. Epstein."
Dick Rowe, executivo da Decca Records, recusando-se a assinar contrato com os Beatles, em 1962.

Todas essas frases entraram para a história ao serem desmentidas pela própria história. Caso não tenham notado, todas elas são de autoria, ou inglesa, ou americana. Americanos e ingleses não costumam perdoar gafes e utilizam a sua memória rancorosa para ridicularizar todos os que se atrevem a dizer o que não sabem.

Os brasileiros, embora debochados e apaixonados por uma boa piada, raramente lembram de coisas muito complexas relacionadas a sua cultura.

Na verdade, eu acho que nós temos uma memória bem seletiva. Lembramos claramente de alguns fatos e tratamos de esquecer outros tantos que não nos interessam. Isso acontece em todos os países do mundo. A grande diferença é que, no Brasil, nós sempre teimamos em memorizar os fatos menos importantes :)

No futebol, por exemplo, fala-se muito sobre a Copa de 70: comenta-se sobre a genialidade de Pelé, o chute letal de Rivellino, a técnica apurada de Tostão e blá-blá-blá. Reprisou-se tanto os melhores momentos daquele time que acabamos por esquecer que aqueles jogadores eram tão humanos quanto qualquer jogador de nossa época. Menos mal que a internet está aí para dar uma forcinha.

E desse vídeo aqui, vocês lembram? Ele fez parte da campanha presidencial do Lula em 2002.

Já copiamos os estrangeiros na música, na moda e na cultura. E fizemos isso com tanta convicção que, na maioria das vezes, conseguimos transformar essa experiência em algo produtivo. Mas ainda sonho com o dia em que aprenderemos a importar também o senso crítico lá de fora.

Abração pessoal.
Juízo.