
Nunca soube descrever minha relação com o Saramago. Eu não era fã dele, mas não suportava ver alguém xingando o cara, sempre me atrevia a defendê-lo, mesmo não concordando com grande parte de suas idéias. Era realmente algo inexplicável.
Ganhei o livro
Todos os Nomes em 2002, não me lembro ao certo em que data. A capa era super formal, me estimulou a encarar o livro de uma forma séria. Dei uma olhada na contracapa. Li os créditos do autor e guardei, deixando o livro guardado até o dia em que eu pudesse me dedicar exclusivamente a leitura.
Alguns dias depois de tê-lo ganho, ajeitei-me na melhor sombra que encontrei e abri o livro, enfim. Não sei se eu havia criado expectativas demais ou se o livro era mesmo de pouco brilho, mas eu achei uma tremenda besteira. Quando já havia lido as primeiras 10 páginas, comecei a me perguntar porque eu estava fazendo aquilo.
Eu estava começando a escrever as minhas coisas naquela época. Tinha pouco mais de 10 anos e aquela narrativa corrida e carente de pontos finais era a pior coisa que eu, fã de Clarice Lispector, poderia ter pego em mãos naquela tarde de domingo.
Anos depois, quando precisei doar um livro para fazer minha ficha na Biblioteca Municipal, passei o Saramago e sua sabedoria lusitana adiante.
Nesse meio tempo, descobri que ela era um cara importante. Havia publicado o comentado
Ensaio Sobre a Cegueira, escrito poesias bem densas nos anos 60, reinventado a própria Bíblia no início dos anos 90 e ganho o Prêmio Nobel de Literatura justamente na época em que publicou o renegado livro que foi parar por acidente na minha cabeceira.
Eu passei a defender Saramago como defendia Mick Jagger: não era o meu preferido no segmento, fazia uma porção de coisas que eu não gosava, mas era uma figura clássica e importante que influenciou muita gente que eu admiro.
Ele tinha alguns discursos meio clichês que pareciam seguir fórmulas: citava a entidade a ser xingada, encrementava a crítica com palavras fortes como reacionário, ditador e verdade-absoluta, e terminava com um singelo tom blassê: "é a minha opinião". Mesmo assim, eu aprendi a ter duas opiniões sobre uma porção de coisas. Uma servia para mim e para os debates que eu travava em meu nome. A outra, quase oposta, servia para concordar o Saramago e impedir que ele fosse linxado sem nem estar presente, como fiz diversas vezes ao longo da minha vida escolar.
Tenho mania de deixar o rádio ligado enquanto durmo. Em um daqueles plantões matutinos, ouvi, ainda deitado e meio dormindo, a notícia de que o dono de minha segunda opinião havia sentido-se mal durante o café e falecido logo após.
Sem ele, a língua portuguesa fica bem mais pobre. Ou pelo menos é o que dizem os seus admiradores. Minha única certeza é a de que teremos menos clássicos sendo lançados nos próximos anos. Era sempre bom saber que teríamos pelo menos um Saramago entre um Crepúsculo e outro.
Daqui fica o respeito e a promessa: pretendo revisitar aquele livro quando estiver preparado. Siga em paz, portuga.